Justo Werlang e a Bienal do Mercosul

Abrindo janelas
em paredes

.
Por Sylvia Bojunga  

Justo Werlang, presidente da 6ª Bienal
do Mercosul

Empresário e colecionador, Justo Werlang tem seu nome profundamente associado à criação da Bienal do Mercosul e à história da Fundação que a promove. Em julho passado, foi eleito pelo Conselho de Administração da instituição para presidir a 6ª edição da mostra, programada para os meses de setembro a novembro de 2007, em Porto Alegre. Ao seu envolvimento e contribuição em iniciativas culturais que nascem no Rio Grande do Sul e ganham ressonância nacional e internacional, somam-se a atividade empresarial e a participação em projetos voltados ao desenvolvimento sustentável. Na vida de Justo Werlang, arte e meio ambiente, contemporâneo e ancestral mesclaram-se desde muito cedo.

Graduado em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e em Administração de Empresas pela PUC-RS, Justo Werlang, 50 anos, é mestre em Administração pela COPPE-AD, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1997, presidiu a primeira edição da Bienal do Mercosul, sendo o vice-presidente da quarta e da quinta edições, em 2003 e 2005, respectivamente. Hoje é também vice-presidente e membro do Conselho Curatorial da Fundação Iberê Camargo, membro do Conselho da Fundação Gaia, já tendo atuado como conselheiro voluntário em diversas instituições, entre elas o Museu de Artes do Rio Grande do Sul (Margs), onde presidiu a Associação dos Amigos do Museu.

Formação: cultura e natureza

“Devo à minha avó ‘emprestada’, Nacyra Pettini, os primeiros contatos com a arte, quando eu tinha cinco anos. Mulher forte, de origem italiana, ela administrava uma olaria. Naquele tempo, botava a mão no barro, empilhava e carregava tijolos, trabalhava com os peões, e era uma mulher muito culta. Dava aulas de francês na Aliança Francesa, de italiano, piano, e também de modelagem em argila. Com ela tive as primeiras lições de piano e de modelagem, que despertaram em mim o gosto pela arte. Mais tarde cantei no coral da escola e aprendi a tocar flauta doce”, recorda Justo Werlang.

O ambiente familiar e a educação recebida dos pais funcionaram “como uma têmpera de frio e quente”, como define o presidente da 6ª Bienal do Mercosul. O pai, Gastão Avelino Werlang, era piloto da Varig e tinha facilidade para viajar. Aos nove anos, Justo teve a oportunidade – rara para meninos de sua idade – de visitar a Europa pela primeira vez. Com antecedência, seus pais planejaram a programação e consultaram professores de história para definir o roteiro cultural mais adequado. Foi assim que ele e os irmãos mergulharam no universo dos museus, das coleções de arte e sítios arqueológicos, compreendendo, desde cedo, o valor do patrimônio artístico e histórico universal.

Por outro lado, havia o contato permanente com a natureza em sua forma bruta. Também aos nove anos, Justo começou a passar as férias na praia de Itapirubá, em Santa Catarina, que era, então, uma pequena vila de pescadores, com casas simples de madeira, sem energia elétrica, e umas poucas ruas de terra batida. O local foi escolhido por seus pais porque o litoral sul de Santa Catarina oferecia todas as condições para a aventura: os morros junto ao mar, a mata, as cavernas, a flora e a fauna marinhas exuberantes. “Quando a energia elétrica chegou lá meu pai achou que era hora de irmos embora. Ele queria que os filhos encontrassem a natureza da forma mais bruta e virgem possível. Tínhamos de buscar água longe, de balde, usar luz de lampião de querosene, fogão a lenha, sem geladeira. Era todo um adaptar-se às condições naturais”.

Além das temporadas em Santa Catarina, a família conheceu, nos Estados Unidos, alguns santuários naturais como o Yosemite National Park, o Sequoia National Park e o Grand Canyon, onde fizeram questão de acampar
. “Hoje percebo que havia uma estratégia de educação no sentido de oferecer o melhor da cultura e o melhor da natureza”, observa Justo Werlang. Companheira de todas as horas, sua mãe, Carmen Werlang, ex-aluna do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é também parceira nos negócios e até hoje acompanha os filhos e netos em cavalgadas de seis dias e excursões de rafting.

As lições aprendidas no contato direto com a natureza levaram Justo Werlang a dedicar parte de seu tempo a projetos ambientais. Vegetariano, foi sócio fundador e primeiro presidente da Coolméia, a primeira cooperativa gaúcha criada para incentivar a produção de alimentos orgânicos, livres de agrotóxicos, que teve importante papel na disseminação de conceitos relativos ao consumo responsável. Atualmente, ele preside a empresa familiar G.A.Werlang – Gestão e Ambiente, onde coordena o Projeto Ambiental Gaia Village, empreendimento com características sustentáveis e de educação ambiental criado com o irmão em Garopaba, no litoral sul catarinense.

Coleção: o reconhecimento da arte

Justo Werlang e Sonia Mitiko conheceram-se na Faculdade de Direito, em Porto Alegre. Logo no início do casamento, quando transferiram-se para o Rio de Janeiro como bolsistas do curso de Mestrado da UFRJ, recortavam reproduções de quadros impressas em calendários, colocavam moldura e penduravam. “Nós tínhamos o desejo de abrir janelas na parede”, conta Justo. Mais tarde, voltaram a Porto Alegre para o nascimento do primeiro filho, Dante Hiroshi, e, a partir de 1986, com a construção da casa própria, cresceu o interesse de conhecer a produção artística do Rio Grande do Sul. “Foi difícil. O Museu de Artes funcionava de forma precária. Não havia uma programação definida. A exceção, na época, foi a gestão de Evelyn Berg Ioschpe, que deu uma contribuição enorme às artes”, avalia.

Nessa busca, por meio de um primo colecionador, Justo Werlang conheceu galerias de arte e passou a freqüentá-las, em uma época de escassa oferta de exposições em espaços não comerciais. A grande coleção aberta ao público era, então, a da Aplub, em sua opinião a mais completa e importante do Estado. No mesmo período, conheceu a coleção de arte contemporânea de Rubem e Liba Knijnik, que considera o melhor conjunto artístico de vanguarda no Rio Grande do Sul. “Ainda não vi ninguém com tanta coragem para colecionar obras que, no momento histórico, eram dificilmente compreendidas como arte”.

Em Porto Alegre, na ampla residência de Justo e Sonia Werlang, as formas retas, a fachada em tom terracota e o verde do jardim revelam a identidade dos proprietários. Ao ar livre, variadas espécies de cactus, plantas nativas e aromáticas convivem com esculturas de grandes mestres como Amílcar de Castro e Xico Stockinger, em recantos com influência oriental. Na coleção, além de mais de 100 esculturas de Stockinger, há obras de Iberê Camargo, Siron Franco, Daniel Senise, Nelson Felix, Karin Lambrecht, Mauro Fuke e Felix Bressan. Justo Werlang concentra sua atenção sobre oito artistas brasileiros contemporâneos, cuja trajetória pretende evidenciar com o acervo. Embora não tenha a intenção de organizar uma exposição de sua coleção, ele coloca todas as peças à disposição dos artistas, para freqüente exibição em mostras individuais e coletivas.

O reconhecimento do valor artístico das obras contemporâneas é dificultado pelas raízes históricas dos gaúchos, comenta Justo Werlang. Parafraseando o empresário e amigo Jorge Gerdau Johannpeter, um dos idealizadores da Bienal do Mercosul e seu principal apoiador, diz que “somos colonos novos”. E explica: “Nossa formação econômica se deu a partir do pequeno imigrante, do colonizador que precisava plantar para comer. O dinheiro não veio de modo fácil, como quem descobre uma mina de diamante ou um poço de petróleo. A formação dos gaúchos determina um cuidado muito grande com o amanhã e isso de certa forma nos deixa mais presos à terra e reduz a possibilidade do contato com a arte. Nossa educação é mais voltada ao trabalho. Considero que a minha geração não teve uma boa educação humanística”.

Por que a preferência por arte contemporânea? “A peça de arte contemporânea é fruto de uma reflexão sobre um problema específico. Não é só um objeto que poderá ser valorizado ou não pelo mercado. O objeto da obra é outro. E essa é uma questão que merece reflexão”, afirma o colecionador.

Bienal do Mercosul – avanços e desafios

Na apresentação do catálogo da 1ª Bienal do Mercosul, realizada de outubro a novembro de 1997, Justo Werlang, então presidente, relata o nascimento do arrojado projeto: “Há pouco mais de dois anos, em um vôo entre São Paulo e Porto Alegre, numa dessas coincidências que provoca a vida, Maria Benites (produtora cultural hoje radicada na Alemanha) encontrou Jorge Gerdau Johannpeter. Nesse encontro surgiu a primeira centelha que resultou nesta série de eventos que compõem a I Bienal do Mercosul”. (…) “Seu alcance somente será compreendido com um distanciamento histórico, mas certamente não se encerra nas questões estéticas levantadas”.

De fato, passados mais de dez anos de sua concepção, é possível melhor avaliar o percurso da Bienal do Mercosul. Na primeira edição, o curador Frederico Morais reuniu o maior número de artistas, de obras, de espaços expositivos, na maior área já ocupada pelo evento. Foi um esforço enorme realizado para sair da estaca zero e conseguir atrair um público visitante de 291.167 pessoas. Na segunda edição, o presidente Ivo Nesralla, renomado cirurgião, entrou em cena em um momento de extrema dificuldade: desvalorização do real e turbulências políticas no Rio Grande do Sul. Justo Werlang lembra as palavras de Nesralla: “O paciente está com o peito aberto e eu vou operá-lo. Se fechar, ele morre.” Se não fosse essa coragem e despreendimento para coordenar um trabalho de tamanho porte, de forma voluntária, certamente não haveria uma segunda edição.

“Na terceira edição, o curador Fábio Magalhães entrou com sua experiência e, na quarta, o presidente Renato Malcon agregou o seu saber fazer”, analisa Justo. Segundo ele, a partir de então teve início um processo de profissionalização dos quadros e processos da Fundação Bienal, sobretudo no relacionamento com seus públicos, patrocinadores e veículos de comunicação. “O curador Paulo Sérgio Duarte, por sua vez, trouxe enorme bagagem acadêmica, com
pondo uma mostra que dificilmente poderá ser repetida – quase 90% das obras de arte contemporânea foram produzidas especialmente para a Bienal. Além disso, houve extremo cuidado com o projeto editorial de forma reproduzir as obras em um livro de arte e não apenas um catálogo”, relata Justo Werlang. Em resposta, a afluência de público estourou na quarta edição, que contabilizou mais de um milhão de visitantes – o recorde até o momento.

Na avaliação do presidente da 6ª Bienal do Mercosul, as cinco primeiras edições, que, juntas, acolherem mais de 3,1 milhões de visitantes, de certa forma alteraram a visão do público em relação à arte. “É algo muito tênue ainda mas há uma contribuição efetiva, que inclui a própria formação profissional. Se os profissionais, sejam eles artistas ou produtores com vocação para entrar no mercado de trabalho das artes visuais, não tiverem oportunidades, irão embora, em geral os mais qualificados. Então é preciso evitar esse êxodo e dar-lhes a esperança de que algo possa mudar”, reitera Justo Werlang.

A Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul, que conta com 7 a 10 colaboradores permanentes, no período de realização da mostra chega a ter de 1200 a 1300 colaboradores diretos. Isso significa oportunidade para formação de mediadores, de coordenadores de espaço, de montadores, especialização de empresas voltadas à construção museográfica, em escala crescente.

Justo Werlang enfatiza que a Fundação não se coloca como uma instituição isolada. Há toda uma rede de atores trabalhando em conjunto, entre eles o Museu de Artes do Rio Grande do Sul, o Museu de Arte Contemporânea do Estado, a coordenação de Artes Visuais da Prefeitura Municipal de Porto Alegre com seus espaços, o Atelier Livre da Prefeitura, o Instituto de Arte da UFRGS, o Santander Cultural, a Fundação Iberê Camargo, o Torreão e as galerias de arte. “A ação conjunta de todos esses atores tem contribuído para um avanço na área”.

O objetivo da Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul, segundo seu presidente, é trazer contribuições efetivas aos diversos públicos. Não é, como pensavam alguns, no início do processo, atender especificamente ao público do Rio Grande do Sul. “É uma miopia querer fazer uma Bienal gaúcha. Inúmeras vezes respondi perguntas sobre o número de artistas do Estado que estariam presentes na mostra. Na primeira edição eles representaram 14% dos artistas brasileiros; na segunda, 38%; na terceira, 18%; na quarta e na quinta, 20%. Do meu ponto de vista, essa representação tem sido sobredimensionada”, diz Justo Werlang.

Curadoria, visão renovada e ampliada

Em cinco mostras, a Bienal do Mercosul teve quatro curadores, todos brasileiros. Na sexta edição, pela primeira vez a curadoria geral será desenvolvida por um estrangeiro, Gabriel Pérez-Barreiro. Nascido na Espanha, ele cresceu e foi educado na Inglaterra, onde concluiu Doutorado na Essex University, a escola européia com maior dedicação ao estudo da arte latino-americana. Sua tese centrou-se no movimento concreto argentino. “Sua especialização é a arte do Cone Sul, que conhece não apenas por mostras ou exposições que visitou. Ele tem vivência de atelier, de contato direto com os artistas”, sublinha Justo Werlang. “Avaliamos que a mirada de um curador não brasileiro traria todo um outro aspecto à mostra no sentido da ampliação do olhar e do próprio potencial da Bienal”, afirma.

Hoje a Fundação Bienal vive um momento de inflexão e busca ampliar suas possibilidades de contribuição. Segundo Justo Werlang, os desafios são de duas ordens: primeiro, da própria continuidade gerencial da instituição e, segundo, de natureza curatorial. “Nosso desafio é agregar e formar mais valores humanos. Temos um Conselho de Administração e uma Diretoria que são excepcionais e precisamos trabalhar novos canais para que esse grupo de colaboradores participe mais diretamente dos destinos da instituição. Também os colaboradores permanentes e temporários necessitam atendimento especial. Essas pessoas fazem parte da instituição e atuam dentro da comunidade e do mercado. Queremos contribuir objetivamente para agregar e formar mais valores”.

Para a 6ª Bienal do Mercosul, foi eliminada a figura do curador da representação nacional. Desta vez haverá curadores por mostras, em co-curadoria com Gabriel Pérez-Barreiro. Esse grupo será responsável por mostras compostas por artistas de diversas nacionalidades, sem a obrigação de contar com um curador por país.

Ênfase à arte-educação

Desde a 1ª Bienal do Mercosul a função pedagógica da mostra foi alvo de atenção dos organizadores, embora os resultados nem sempre tenham correspondido à expectativa gerada. Para a edição de 2007, foi definido que haverá, desde o primeiro momento, um curador específico para a área, que trabalhará de forma integrada com o curador geral.

Nesse sentido, o artista e professor de artes Luis Camnitzer, uruguaio radicado em Nova York, que já participou como artista na primeira Bienal, será responsável pela orientação pedagógica. A primeira reunião do curador-geral e do curador da área pedagógica com os membros da equipe de coordenadores de espaços deverá acontecer em outubro. Para isso, em setembro começará o trabalho com a equipe interna e os colaboradores temporários com o objetivo de preparar os contatos com as secretarias de Educação do Estado e dos municípios. Segundo o presidente da 6ª Bienal, o material de apoio deverá estar pronto até fevereiro para iniciar o relacionamento com os professores já em março, no início do ano letivo. A idéia é que esse material prepare os professores e alunos para a visita à Bienal.

Justo Werlang adianta que uma das questões mais presentes no material pedagógico será a voz do artista, ou seja, sua fala na primeira pessoa sobre o trabalho realizado. A previsão é construir 20 estações pedagógicas, onde o público poderá fazer exercícios sobre a mostra. “A visão, tanto do curador geral como do pedagógico, é de que temos a obrigação de compreender o público a partir de sua capacidade criativa. Queremos fazer com que a relação seja mais direta, respeitando o potencial dos visitantes. Por exemplo, apresentamos o problema trabalhado pelo artista e indagamos – como você solucionaria essa questão? Em vez de despejar um caminhão de textos, queremos despertar o olhar e o entendimento sobre a arte”, informa o presidente.

À frente da Fundação Bienal de Artes Visuais do
Mercosul, Justo Werlang tem a questão da educação muito presente desde o primeiro momento. Ele ilustra essa preocupação citando novamente o empresário Jorge Gerdau Johannpeter, a quem considera “o farol” nesse cenário: “Como podemos despertar a capacidade criativa e educá-la? Para termos um design tão inventivo como o italiano, por exemplo, precisaremos de mais umas 20 edições da Bienal”. A instituição toma a si o desafio de oferecer uma contribuição efetiva à arte-educação e o presidente promete: “Na sexta edição vamos aprofundar essa visão”.

Mais sobre Sylvia Bojunga

 
13.08.06

Deixe seuComentário