.… como eu acabei discutindo estas questões? O que quero transmitir-lhes é como de um fazendeiro de Montana, criador de gado e de gado confinado eu passei a falar para as pessoas sobre cortar seu consumo de carne.

Muitos anos atrás, eu estava no segundo grau. Havia duas coisas que eram muito importantes para mim no segundo grau: jogar futebol e ir a festas. Eu era muito bom em ambos. Não tinha interesse no que estava acontecendo na escola porque eu era um fazendeiro de quarta geração. Eu fui criado no que considero ser a coisa mais próxima de um pedaço de Jardim do Éden. Tínhamos solo úmido, minhocas, coiotes, roedores, pássaros e árvores; aquela fazenda era uma entidade viva e eu a amava. Tudo que eu queria fazer era sair do  segundo grau, voltar e operar aquela fazenda, porque eu sabia que isso era exatamente aquilo que eu queria fazer para o resto de minha vida.

Para surpresa de muitos de meus professores, eu me formei. Voltei para casa e descobri que tinha um problema enorme: fiquei mais mudo que um poste. Eu tinha um negócio e eu não sabia como administrar um negócio. Portanto, fiz o que muitos outros jovens americanos fizeram. Se você vai para a segundo grau e não aprende nada, você simplesmente vai para a faculdade. Portanto, eu fui para a faculdade, mas não cometi o mesmo erro da segunda vez. Quando fui para a faculdade, peguei as informações disponíveis e as suguei como uma esponja. Eu sabia que eu voltaria para aquela pequena fazenda e usaria esta informação para torná-la um mega negócio.

Implementei esta informação que me foi dada. Usei herbicidas e pesticidas, hormônios e medicamentos. Você precisa crescer e ficar maior e foi isto que fiz.

Transformei aquela pequena fazenda em uma corporação agrícola de bom tamanho. Tinha cerca de mil bois e bezerros, umas 500 cabeças confinadas, centenas de acres de plantação e muitos empregados. Eu estava usando todas aquelas habilidades que ali estavam. Eu era o Donald Trump da agricultura.

Em 1979, fiquei paralítico da cintura para baixo. Tinha um tumor dentro da coluna espinhal. Enquanto eu estava deitado lá, não sabendo se iria caminhar novamente, muitas coisas passaram pela minha cabeça. Uma destas coisas que estava marcando à fogo minha cabeça era como aquela fazenda se parecia quando eu era garoto: com o solo úmido, minhocas, roedores, pássaros e árvores. No outro lado da página estava como esta fazenda parecia  após 20 anos de minha administração de uma dieta química. Matamos as árvores com químicos, os pesticidas eliminaram os insetos, de modo que os pássaros se foram, matamos os roedores, portanto os coiotes se foram. A herbicida matou as minhocas e o solo parecia importado de Marte.

Enquanto eu estava lá deitado, não sabendo se jamais caminharia novamente, estas duas imagens estavam em minha mente. Comecei a questionar muitas coisas. E a questão maior era a operação de minha fazenda: ela era sustentável ou eu estava enganando a mim mesmo? Era uma terra supervalorizada que fazia com que os fazendeiros menores me olhassem como se realmente eu fosse um administrador agrinegócio? Se eu subtraísse o valor adicionado à terra dessa equação, ficava claro que o que eu estava fazendo naquela fazenda não era sustentável.

Eu estava minando aquela fazenda. Eu estava tirando mais dela do que estava colocando. E aquela fazenda estava gritando e me dizendo “O que você está fazendo é errado!” A textura do solo me disse que era errado A perda das minhocas me disse que estava errado. Estava errado pelos pássaros que partiram, pelos coiotes que se foram, pelos roedores que partiram; aquela fazenda estava tentando me dizer isso.

Até eu chegar ao ponto de ficar deitado sobre minhas costas paralisadas, eu não era suficientemente esperto para dar ouvidos a isso. Mas, na medida em que eu fiquei deitado lá, e revi tudo isso em minha mente. Fiz uma promessa a mim mesmo, que o resto da minha vida eu faria apenas aquela coisas que eu acreditasse serem corretas. Nunca mais eu aceitaria informações cegamente, não importa a fonte. Nunca mais eu aceitaria algo como sendo verdadeiro até que isso se ajustasse com as informações de que eu dispunha o senso comum.

Fui operado e tiraram o tumor de minha coluna e eu saí caminhando do hospital. Havia uma chance em um milhão de isso acontecer, que o tumor não interferisse nas fibras da minha coluna espinhal; mas não interferiram e eu saí caminhando de lá. Mas, mesmo assim, eu estava com um vírus e por um longo tempo não pude focalizar meus olhos. Até hoje eu acredito que o Homem Lá Em Cima estava me dizendo, “Não esqueça da promessa”. E eu não esqueci.

Voltei para casa e dei uma olhada naquela operação de fazenda. Revi-a e estava tão distante daquele caminho, tão longe da sustentabilidade que não havia absolutamente maneira de fazer voltar aquela fazenda ao que era. Vendi a fazenda e me dediquei a ler e estudar.

Quanto mais eu lia e estudava, tanto mais eu precisava ler e estudar, porque as coisas que eu havia ensinado por 40 anos não eram verdadeiras e honestas. Eram propaganda política paga que estava suportando a indústria química, a indústria farmacêutica, a indústria empacotadora. E aí estava eu; eu era um dos que lá estava gerando seus lucros. Gastei dois a três milhões de dólares por ano para suprir aquela fazenda, para comprar herbicidas, pesticidas, hormônios e químicos.

Na medida em que olhava para isso e comecei a ler e estudar, inicialmente pensei que o problema estava no meio ambiente e que precisávamos reverter algumas coisas aí. Quando revi o que estava acontecendo na agricultura, soube que não éramos capazes de fazer as mudanças na agricultura sozinhos. Isso foi durante os anos oitenta e a crise financeira das fazendas. Viajei por toda parte e visitei muitos fazendeiros. A coisa interessante que descobri foi que aquilo que eu estava fazendo na minha fazenda, e que não era sustentável, estava sendo feito em muitas outras fazendas. Não era somente em minha área, nem meu estado, mas em todo o país estávamos fazendo coisas não sustentáveis.

Deixe-me dar um exemplo de quanto mau era isso. Somos uma nação com pouco mais de duzentos anos. Em duzentos anos perdemos 75% da cobertura do solo. Pense sobre isso. Nos orgulhamos de sermos o celeiro do mundo, e 75% da cobertura do solo foi perdida em menos de duzentos anos. Compare isso com a Índia, a China ou o Egito. Por centenas de anos eles tiveram uma sociedade alimentando seu povo.

Aqui estamos clamando pela habilidade de alimentar o mundo e quando nossos filhos ou netos crescerem não poderemos nem mesmo alimentar a nós próprios. Ninguém está se levantando e dizendo “Espere um minuto, precisamos parar, precisamos reverter as coisas”. Você vê alguém no governo se levantando, erguendo seus braços e dizendo nossa forma de operação, nossa agric
ultura não é sustentável? Não. O que eles estão fazendo? Estão dizendo: “Não se preocupem, teremos uma nova variedade de plantas; o progresso virá do laboratório químico. Vamos continuar fazendo assim: nós alimentaremos o mundo”.

Bem, eu sabia o que estávamos fazendo na agricultura. Não mudaríamos esta situação ali. E, pensei, talvez, se tivéssemos uma oportunidade pudéssemos ir até Washington e mudar a política pública. Me deparei com uma oportunidade e fui para Washington onde fiquei cinco anos trabalhando no Capitólio. E, se você não se lembra de nada, eu quero lembrar-lhe uma coisa que aprendi no Capitólio e que jamais vou esquecer. É chamada de Regra de Ouro: “Quem tem o ouro faz as regras”.

Quando as pessoas me perguntam sobre trabalhar no Capitólio, a primeira pergunta é: todos os membros do Congresso são comprados e pagos? Absolutamente não; mas muitos deles, com suas mãos na garganta do governo são devedores a grandes interesses financeiros. Eu diria que não resolveremos nossos problemas esperando que ele venha de Washington.

Fiquei desanimado. Sabia que não iríamos resolver isso nas fazendas. Estava convencido que não o faríamos em Washington. ….

 Então uma coisa estranha me aconteceu no meio do oceano: estávamos pescando atum em redes de tração e apareceram fotografias de golfinhos nestas redes; e os alunos das escolas americanas viram e disseram: “Meu Deus! Eles estão matando Flipper!” E foram para casa e disseram a suas mães: “eu não vou mais comer atum nunca mais, enquanto continuarem a matar Flipper”.

Não mais pizzas de atum, não mais sanduíches de atum – nenhum absolutamente. As companhias Regra de Ouro riram. O que poderia ser mais estranho do que um punhado de garotos secundaristas dizer-lhes como pescar peixes? Eles tinham bilhões de dólares de barcos pesqueiros, fábricas de enlatados e caminhões. Crianças secundaristas iriam dizer a eles como pescar! Mas, é algo interessante. As mães do mundo todo são iguais: elas não compram um produto que sua família não vai comer. A venda de atum caiu enormemente. E as companhias “Regra de Ouro” sabiam não se pode continuar a governar quando o ouro não mais domina.

O que fizeram? Colocaram uma etiqueta na lata dizendo “Esta lata de atum foi pescada salvando os golfinhos”. Para mim foi como se as nuvens tivessem ido embora e o sol aparecesse. Foi um raio de sol: a primeira vez que…..

Por esta época Jeremy Rifkin escreveu o livro “Beyond Beef” “Além da Carne”. Li o livro e disse: “Uau! Há muitas questões nele que são comuns a todos de nossa agenda”. Podemos ter diferentes prioridades. Talvez nos preocupemos com nossa saúde pessoal como a prioridade número um, ou talvez nos preocupemos mais com o sofrimento e a exploração dos animais, ou talvez com o aquecimento global, ou a destruição da floresta tropical ou o crescimento dos desertos, ou o uso da água.

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