Cynthia Schuck – apresentação realizada por Cynthia Schuck no IVU Leaders Meeting, (Encontro de Líderes da IVU) sobre incentivos e estratégias de expansão do consumo de proteínas alternativas à proteína animal, no 47th IVU Vegfest, em setembro de 2019, em Berlim, Alemanha.

A história da humanidade nos ensinou repetidamente que depender exclusivamente da virtude e compaixão não é uma forma eficaz de conseguir mudanças sociais positivas em larga escala, especialmente quando estas mudanças não estão alinhadas com interesses individuais.

É claro que isso não quer dizer que interesses individuais devam prevalecer sobre o bem comum. Tal sistema seria (e tem sido) igualmente instável a longo prazo por comprometer as próprias sociedades e grupos onde os indivíduos vivem. Como já dito por Charles Darwin, “pode ser que pessoas morais não tenham vantagem alguma sobre pessoas imorais, mas tribos de pessoas morais certamente têm uma vantagem imensa sobre bandos rebeldes de piratas“. Em vez disso, a ideia é a de que resultados sociais benéficos podem ser alcançados com mais frequência por estruturas de incentivos capazes de alinhar interesses sociais aos interesses individuais. Incentivos impulsionam comportamentos.

Eu uso essa noção para explorar a estrutura de incentivos por trás da expansão do mercado de proteínas alternativas, ou seja, produtos de origem vegetal e “livres de abate” (que não dependem da criação e abate de animais). A pecuária, particularmente os sistemas de produção intensiva de animais (também conhecidos como fazendas industriais) está inerentemente associada a uma série de problemas de ordem ética e social, desde questões de saúde pública e individual, até custos ambientais diversos e sofrimento animal em níveis sem precedentes. Se quisermos promover um sistema alimentar sustentável, saudável e ético, é preciso garantir que os incentivos individuais para sua expansão estejam alinhados com os resultados desejados.

O infográfico a seguir apresenta um resumo dos principais incentivos para o consumo (círculos vermelhos) e a abstenção (círculos verdes) de produtos de origem animal. À esquerda, o infográfico resume (de forma não exaustiva) algumas das estratégias usadas e possíveis para a expansão do mercado de proteínas alternativas, concomitantemente com os incentivos aos quais elas estão associadas.

Os incentivos para o consumo de produtos de origem animal são muitos e diversos: sabor (obviamente um fator-chave nas escolhas alimentares), tradição (refeições de origem animal costumam fazer parte de nossa cultura e dos ambientes sociais que frequentamos), conveniência (produtos de origem animal estão disponíveis em praticamente todos os lugares), status social (até recentemente, comer carne era um luxo para poucos), preço (a carne se tornou incrivelmente barata e acessível), a crença em mitos de saúde ainda amplamente difundidos (por exemplo, de que a proteína animal é necessária), a associação (incorreta) de produtos de origem animal com ambientes naturais e bucólicos de fazenda (uma fantasia rural que traz em muitos a idéia de uma vida natural e tradicional, mas que dificilmente representa a realidade atual da indústria pecuária) e a rejeição da identidade vegetariana (ou vegana), infelizmente ainda associada a estereótipos, visões políticas específicas, ou mesmo a outras causas sociais que – independentemente de seu mérito – muitas pessoas rejeitam.

Por outro lado, a abstinência, ou redução, do consumo de produtos de origem animal é frequentemente baseada nos benefícios para a saúde de uma dieta vegetariana ou em preocupações éticas relacionadas ao meio ambiente e ao sofrimento animal. Esses incentivos são suficientes para manter muitas pessoas neste caminho. No entanto, para a maioria da população a informação por si só não é suficiente (quantas pessoas sabem e sofrem dos riscos para a saúde de fumar ou comer de forma excessiva, mas não conseguem abandonar esses hábitos?). Ainda que abordagens bem elaboradas enfatizem a importância da saúde e as preocupações éticas relacionadas à criação e consumo de animais, o desequilíbrio na estrutura de incentivos mostrada na balança do infográfico é grande, dificultando mudanças de larga escala. Afinal, gosto, tradição, preço, conveniência e normas sociais são, e sempre foram, os principais determinantes das escolhas alimentares.

Os últimos anos têm testemunhado, no entanto, uma explosão no número de estratégias e abordagens para facilitar a expansão do mercado e consumo de proteínas alternativas. Entre elas, está o surgimento dos movimentos focados na redução do consumo de proteína animal, juntamente com campanhas com foco na mudança gradual e mais fácil nos hábitos de consumo, bem como a expansão de opções alimentares vegetarianas nos setores de comércio e serviços – aumentando sua conveniência. Estratégias de apoio ao crescimento do mercado de proteínas alternativas (envolvendo, por exemplo, inovação tecnológica, conscientização de investidores, criação de grupos de interesse) também devem ajudar a reduzir as diferenças de sabor e preço entre os produtos de origem animal e seus substitutos. No caso da carne cultivada, a possibilidade de não se renunciar ao sabor, tradição e status social associados à carne também poderá representar, para muitos consumidores, um ponto de virada no afastamento de opções alimentares que envolvem a criação e abate de animais. Quando a balança de incentivos começar a tender para o lado verde, mudanças em larga escala serão inevitáveis.

Fonte: IVU (International Vegetarian Union)

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