CARTA ABERTA AOS
CIDADÃOS BRASILEIROS

 

Publicada em 20/03/2006

ONGs pedem socorro para conter a farra do boi em SC

A Quaresma e a Páscoa são períodos do ano amaldiçoados pelos protetores de animais em Santa Catarina, pois é nessa época que ocorre com maior freqüência a famigerada "farra do boi". Essa prática especista, covarde e violenta se constitui na soltura de um ou mais bois – na falta destes usam-se novilhos(as), bezerrões ou cavalos -, que são perseguidos por dezenas, às vezes uma centena de pessoas, sendo que a maior parte dos adultos que dela participam estão totalmente embriagados. É uma cena realmente deprimente. Embora a "farra do boi" tenha sido expressamente proibida por meio de Recurso Extraordinário, por força de acórdão do Supremo Tribunal Federal, na Ação Civil Pública de nº023.89.030082-0, e prevista como crime pela Lei 9.605/98, muitos setores da sociedade catarinense defendem a manutenção dessa prática como parte de uma "tradição cultural".

Polícia para quem precisa…

Estamos cansados de chamar a polícia para o cumprimento da lei e ela não fazer nada. Afirma que está indo para o local e nunca chega, provavelmente porque deseja evitar conflitos pessoais com vizinhos ou parentes farristas. Alega também falta de viaturas ou que há questões mais importantes para resolver, como perseguir bandidos. Mas, recentemente, não faltou à polícia viaturas ou contingente para reprimir violentamente um protesto contra o aumento nas tarifas de ônibus em Florianópolis, do qual várias pessoas saíram feridas.

Morrer e matar de fome, de raiva e de sede…

Os maus políticos também estimulam a "farra" dando bois de presente aos farristas em troca de votos. Tais políticos são os mesmos que votam pelo aumento de passagens, pela ocupação urbana desenfreada, pela destruição do meio ambiente. Destroem a vida dos farristas e lhes dão bois para expiar seus pecados, bois para pagar pelo exercício de seus "podres poderes".

Apologia ao crime

Há menos de um mês um jornalista manifestou em sua coluna, num jornal de ampla circulação, o desejo de assistir a uma farra. Quanta deseducação! Mas pior mesmo foi o diretor de marketing da Santur ter declarado publicamente ser a favor da "farra" e que – pasmem! – esta poderia se constituir numa atração turística! Este último já foi notificado judicialmente pela Procuradoria da República em Santa Catarina e deverá ser processado por apologia ao crime.

"Ignorância culta"

Também alguns professores universitários, sobretudo das áreas de Antropologia e História, defendem publicamente a "farra do boi" como tradição cultural. Além de paternalista e demagógica, tal postura expressa uma visão de ciência reducionista, pois não vêem seus defensores que estão justificando tal prática tomando como parâmetro o paradigma especista e antropocêntrico que domina nossa cultura e, é claro, suas áreas de conhecimento. Imersos nessa racionalidade antropocêntrica, esquecem-se esses doutores e doutoras de que aquele mesmo paradigma, responsável pela destruição das condições de vida no planeta, é apenas uma visão de mundo, uma razão, entre tantas outras. E se esquecem, sobretudo, de que o problema da razão é que por meio dela é possível justificar qualquer coisa, menos o seu próprio fundamento. A ciência deve questionar seus pressupostos filosóficos, rever suas "verdades" e redefinir as metáforas sobre as quais se ergue seu corpo de conhecimento. Caso contrário, não será ciência, mas fundamentalismo.

Panis et circensis! Precisamos de qualquer cultura?

A "farra do boi" é uma prática moralmente indefensável que estimula a violência e a covardia, pois submete seres sencientes ao sofrimento físico e psicológico. Mesmo quando não é severamente ferido ou mutilado, como ocorre na esmagadora maioria dos casos, o pobre animal, em sofrimento psicológico, tenta fugir e acaba morrendo afogado, por queda em despenhadeiro, ou abatido a tiros pela polícia. Além disso, já houve casos de perdas de vidas humanas (farristas e não farristas), destruição do patrimônio de pessoas contrárias à farra etc. A "farra" é, enfim, um grande "circo", cuja energia poderia ser canalizada para a reivindicação de direitos, expressões artísticas etc. Quem estimula a "farra" não é "amigo" do povo. Quem ama seu povo, dá-lhe educação, não "pão e circo". Lamentamos ter que protestar contra atitudes que desrespeitam leis, estimulam a violência e a covardia, tudo supostamente em nome do "gosto", da cultura, de alguns seres humanos. Mas essas pessoas defenderiam, com igual isenção, a manutenção de uma tradição cultural, caso fossem aprisionadas por algum povo canibal para lhe servirem de refeição? Vale a máxima: "pimenta nos olhos dos outros é colírio". Manifestações culturais envolvendo sofrimento sempre existiram. E sempre houve quem as defendesse. A manutenção de manifestações culturais desprovidas de preocupações de ordem ética não nos ajudará, entretanto, a construir um mundo melhor.

Profª Paula Brügger (Projeto "Amigo Animal" / Deptº de Ecologia e Zoologia – UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina)

 

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