Irmãos,

Neste mês de julho cerca de 40.000 bois em 19 navios saíram de Belém rumo ao Líbano. Não levam esperança para o fim das guerras no Oriente Médio. Levam bois vivos para serem sacrificados e se tornarem iguarias, como o quibe cru e o kebab.

Neste ano a Amazônia provavelmente exportará ¼ de milhão de bois vivos, um recorde! Bois também irão para a Venezuela e para as churrascarias e super-mercados de São Paulo, Brasília, Recife e Rio de Janeiro.

Acontece que a pecuária bovina responde por 4/5 dos desmatamentos e das queimadas da Amazônia. Em 50 anos a Amazônia brasileira viu 70 milhões de hectares de floresta virarem pasto (70 vezes a superfície do Líbano, de pouco mais de 1 milhão de hectares).

De minha casa, a mil metros do porto de Belém, vejo os milhares de caminhões boiadeiros do sul do Pará dividirem a madrugada com o belo nascer do sol do rio Guamá; sinto o cheiro do medo e o desespero dos animais a caminho do sacrifício e da guerra.

Se o Cedro do Líbano, símbolo nacional, está confinado à sua bela bandeira e a alguns poucos parques e montanhas, a Castanheira-do-Pará não tem a mesma sorte. A “rainha da floresta”  não faz parte de nossa bandeira. Também não será fácil avistar os seus bosques ao longo das estradas. Vocês as encontrarão mortas, em pé, de braços abertos, crucificadas e queimadas, devoradas pelas carvoarias e pastagens, de onde saem os bois para seus milenares portos de Beirute, Sidon e Trípoli.

Ao exportar bois vivos, globalizamos o aquecimento global, a miséria e a desertificação, enfim, globalizamos a nossa falta de compromisso com nossos filhos e netos. O aquecimento global, pois derrubada e queima de florestas tropicais contribui com pelo
menos 1/10 do aquecimento global. A miséria, pois o boi gera uma renda pífia e poucos empregos aos milhões de amazônidas.

Desertificação, pois a pecuária destrói a floresta, não respeita a diversidade de plantas e animais, não respeita o índio, o caboclo, não respeita a água, tão rara a vocês libaneses. Falta de compromissos com nossos filhos e netos pois não haverá Amazônia para eles deixarem para seus filhos e netos.

A pecuária bovina já tomou ¼ do Brasil (220 milhões dos 850 milhões de hectares). Segundo a FAO (2006) a pecuária bovina ocupa 30% da superfície de nosso planeta Terra. O boi come o equivalente a 2 bilhões de pessoas num planeta em que há 2 dos 6 bilhões de habitantes que passam fome.

Se insistirmos na dieta bovino-carnívora, em poucas décadas, na Amazônia, pastará o maior rebanho do planeta. Não haverá castanheiras, angelins, mognos, ipês ou maçarandubas. Restarão as árvores e as florestas das bandeiras e dos brasões.

Aprendo que o “Líbano” vem de “Olíbano”, árvore que produz uma resina aromática. Brasil, o nosso nome, também vem de uma árvore, ameaçadíssima, símbolo da Mata Atlântica, a nossa outra floresta tropical. A Mata Atlântica, onde morei a maior parte de minha vida, perdeu 93% de sua área original, mais de 100 milhões de hectares (100 Líbanos), para dar lugar à pecuária bovina e às cidades.

Sempre ouvi que os três reis magos levaram ouro, incenso e e mirra ao menino Jesus que acabara de nascer. Hoje aprendi que na verdade, levavam ouro, olíbano e mirra.

Com esta carta, meus irmãos tironeses, sidônios e beirutenses quero lhes pedir que considerem a possibilidade de desistir da carne bovina da Amazônia. Enviem-nos os navios de volta, com sementes de oliveiras, símbolos da paz, de olíbano, para perfumarem os nossos cais, tão machucados com a dor bovina e mirra para espalharmos juntos com os nossos banhos de cheiro.

Esta carne fresca não saciará a sua fome nem resolverá os nossos problemas. Convido-os para conhecerem a Amazônia como turistas, seu povo maravilhoso, sua Natureza. Escolha que riquezas vamos carregar em seus navios, ânforas e arcas, produzidas, naturalmente, de maneira pacífica e sustentável.

De pronto posso lhes recomendar: algumas das três mil espécies de madeiras, o incenso do breu branco para perfumar seus ambientes, o cumaru para perfumar suas roupas e as castanhas-do-Pará, a pílula natural da felicidade e da longevidade, como brasão da paz para reconstruir os lares cansados de guerra.

João Meirelles Filho

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João Meirelles Filho nasceu em São Paulo e mudou-se para Belém há três anos. É empreendedor social, autor do “Livro de Ouro da Amazônia” (Ediouro, 2004) e dirige o Instituto Peabiru – ww.peabiru.org.br

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