11. Não há certo ou errado com relação a moral de cada um;  eu tenho a minha e você tem a sua, ok? 

Essa postura, conhecida como relativismo moral, é bem antiga e era moda na virada do século, quando os relatos dos costumes de sociedades de outras regiões chegaram à Europa. Esse relativismo caiu em desuso depois da Segunda Grande Guerra, embora tenha sido revivida em algumas ocasiões. Segundo esse relativismo, as proposições éticas não são mais que declarações de uma opinião pessoal e, portanto, não têm valor absoluto. 

O principal problema com essa proposta é que os relativistas éticos não podem denunciar praticas eticamente execráveis como o racismo. Em que base eles vão condenar (se é que condenam) as idéias de Hitler de pureza racial? 

Será que deveríamos acreditar que ele estava falando uma verdade ética quando advogava a Solução Final? 
Além da incapacidade de condenar as praticas de outras sociedades, os relativistas não podem contra-argumentar nem mesmo aqueles que participam da mesma sociedade. Eles não podem repreender nem mesmo alguém que se propuser a produzir ração canina com carne humana vinda de seres humanos criados para isso, por exemplo, se esse alguém achar que isso for moralmente justificável. 

De fato, os relativistas não podem adotar o conceito de progresso moral da sociedade, já que eles não tem uma base para julgar o progresso moral. Nem mesmo faria sentido perguntar a um relativista moral sua opinião com relação a  questões éticas como a eutanásia, o infanticídio, ou o uso de fetos humanos em pesquisas.

Diante desses argumentos, os relativistas algumas vezes argumentam que a verdade ética é baseada nas crenças de uma sociedade, e essa verdade ética não é nada mais do que o reflexo dos costumes ou hábitos de uma sociedade.

Abater animais é aceitável no Ocidente, eles diriam, porque a maioria das pessoas pensam que é aceitável. 
Eles não possuem uma base firme nesse aspecto. Deveríamos portanto aceitar que a escravidão era justa antes da abolição e injusta depois? 

Todas as decisões éticas poderiam ser decididas por pesquisa de opinião pública? É verdade que sociedades diferentes terão práticas diferentes que podem ser vistas como éticas por uma e anti-éticas por outra. No entanto, essas diferenças resultam de diferentes circunstancias. Por exemplo, em um ambiente onde a mera 
sobrevivência é crucial, onde há escassez de comida, a pratica do lema "alimente as crianças primeiro" poderia diminuir drasticamente as chances dos demais membros da família que contribuem para a busca de comida causando assim a extinção da sociedade. Diante disso, o infanticídio passivo (deixando de dar a comida escassa às crianças para dar àqueles que buscam comida para aumentar as chances de que eles possam obter ainda mais comida para o restante do grupo) poderia ser o caminho mais viável eticamente. A conclusão é que existe uma verdade ética (se fosse de outra forma, a ética se torna vazia e sem poder prescritivo). 

Assim, aqueles que rejeitam os males da escravidão, discriminação racial e preconceito de gênero e aqueles que denunciam os males do especismo e defendem os DA tem muito em comum. 
AECW 

Vários defensores dos DA (inclusive eu) acreditam que a moralidade é relativa. Nos acreditamos que os DA são mais facilmente defendidos quando se argumenta a partir do ponto de vista do oponente, e defendidos mais facilmente do que propondo uma moralidade universal, mítica e difícil de definir. 

No argumento contra o absolutismo moral, há uma objeção simples:  de onde vem essa moral absoluta? O absolutismo moral é um argumento que vem de uma autoridade, um axioma. Se isso for verdadeiro, deve haver um meio de determinar a "verdade ética" e obviamente, não há. Na ausência de uma prova conhecida da "verdade ética", não sei como AECW pode concluir que ela existe. 

Um exemplo de "método de avaliar a moralidade" de uma pessoa é perguntá-la porque ela tem compaixão com os seres humanos. Quase sempre ela vai concordar que sua compaixão *não vem* do fato que: 

1) humanos usam linguagem, 
2) humanos compõem sinfonias, 
3) humanos podem planejar o futuro, 
4) humanos tem uma cultura escrita, tecnológica, etc … 

Em vez disso, a pessoa vai concordar que essa compaixão deriva do fato de que humanos podem sofrer, sentir dor, se ferir, etc. Então fica bem fácil mostrar que os animais não-humanos também podem sofrer, sentir dor, serem feridos, etc. 

A inconsistência moral arbitrária em não conceder o mesmo status moral aos não-humanos fica então totalmente evidente. 
JEH 

Há uma opinião que fica intermediaria às opiniões de AECW e JEH. Uma pessoa pode dizer que, do mesmo modo que a Matemática é necessariamente baseada em um conjunto de axiomas que não podem ser provados, um sistema ético também o é. 

Na base do sistema ético estão os axiomas morais, como esse:  "toda dor desnecessária é errada". Dado o conjunto de axiomas, os métodos de pensamento (como dedução e indução), e os fatos empíricos, é possível 
derivar hipóteses éticas. Nesse sentido é que uma declaração ética pode ser dita verdadeira. Claro, alguém pode discordar dos axiomas, e certamente tal discordância torna a ética "relativa", mas o conceito de verdade ética não deixa de ser significativo. 

Felizmente, os axiomas éticos mais fundamentais parecem ser universalmente aceitos, normalmente porque eles são necessários para a sociedade funcionar. 

Onde existirem diferenças, elas podem ser elucidadas e discutidas, de uma maneira similar ao "método de avaliar a moralidade" descrito por JEH. 
DG 

Para a pessoa cuja mente é liberta, há algo ainda mais intolerável no sofrimento dos animais do que no sofrimento dos humanos. Porque no caso dos humanos, pelo menos se admite que o sofrimento é algo ruim e aquele que causa isso é um criminoso. 

Contudo, milhares de animais são desnecessariament
e assassinados todos os dias sem sombra de remorso. E se alguém protesta contra isso, acaba sendo ridicularizado. E isso por si só é um crime imperdoável. 
Romain Rolland (autor, Nobel 1915) 

Veja também: 5 

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