Uma apendicite aguda, que estourou e atingiu os intestinos. Quase um mês de internação. Onze dias de jejum absoluto, vários dias vomitando ou comendo mal. Cerca de catorze quilos perdidos. Isso tudo me sobreveio, e mantive surpreendentes calma e bom-humor, especialmente nas horas em que normalmente não se tende a ser “paciente”. Cheguei ao centro cirúrgico três vezes com aquele sorriso e com toda aquela despreocupação curiosa de uma criança. Aliás, tenho só 16 anos mesmo 😉

Fui ovolactovegetariano por anos (inclusive na barriga da mãe) e havia decidido pelo veganismo há um bom tempo. Não como carne ou quaisquer outros derivados do reino animal, e já havia avisado a todos os profissionais da saúde que cuidariam de mim. Eu havia suportado mais de uma semana em “dieta zero” (jejum absoluto), tendo hidratação e glicose pelo soro no braço apenas, e não perdi a lucidez, enquanto uma pessoa comum começa a delirar e se desorientar mentalmente com quatro dias de jejum. A nutricionista elogiou-me pelas minhas reservas nutricionais, e se assustava ao ver que meu cérebro conseguia manter lucidez, rapidez e um sorriso no rosto. Ela não me discriminou, pelo contrário, respeitou e me apoiou bastante quanto à minha alimentação vegana.

Após a terceira cirurgia e o longo jejum para descansar e restaurar os intestinos, quando eu estava apto a voltar a comer (alimentação pastosa inicialmente), foi-me enviada uma bandeja com sopa batida no liquidificador. Estranhei o cheiro, e já não queria mais. Mas me disseram que era normal. “Quanto tempo você ficou sem comer!”, repetiam insistentes. Aquele alimento pastoso que me deram parecia ter carne. Senti o gosto na primeira colherada, pedi que experimentassem, mas negaram – disseram que eu não estava mais distinguindo bem os gostos uma vez que estava a mais de uma semana sem comer nada. Pedi a presença da nutricionista, que não pôde comparecer porque estava noutro hospital. Minha mãe não quis telefonar pra ela pra perguntar.

Obedeci-os, e tomei mais algumas colheradas daquilo, que paulatinamente me enjoava. Até que olhei mais de perto, e percebi um pedacinho de nervo. Novamente disseram que não – era impressão minha. Mordi. Era nervo. Não comi mais. Logo após, chamando a cozinheira, perguntei se ali estava contida alguma carne, e ela disse que sim. Pronto. Meu mundo caiu. Minha alegria supracitada esvaiu-se subitamente. Queria vomitar, todavia o médico e a nutricionista (quando chegou) pediram que eu não o fizesse forçosamente. Quanta humilhação! Um organismo vegano sendo obrigado a digerir cadáver triturado! Digestão forçosa essa fez mal.

Caí em depressão automaticamente. Perdi a vontade de viver, por algum tempo não quis mais minha vida. Só queria chorar, e não conseguia fazer outra coisa. Não podia forçar o abdômen, mas também não podia controlar as lágrimas frenéticas e involuntárias. O clínico e a nutricionista vieram me pedir desculpas, e explicaram que foi uma desatenção da(s) cozinheira(s), que confundiram os pacientes a serem servidos. Foi uma violência extrema contra minha pessoa, algo que um descuido da cozinheira não justifica. E aquele estado emocional crítico, incontrolável, chamou a atenção de muitas enfermeiras e funcionários do hospital, que só aprofundavam minha chaga psicológica através de comentários fúteis, e talvez acidentalmente apáticos, completamente dispensáveis. Por sua ignorância, ignoravam quaisquer possibilidades de alguém envolver ética, consciência ecológica, etc. na alimentação.

Quando consegui me controlar um pouco, pensei em lutar por uma indenização por danos morais. Mas como, preso àquela cama? Quem se levantaria pra defender um vegetariano profundamente ofendido e magoado num país onde quase todos comem carne? Nem minha mãe, que esteve ao meu lado em tempo integral, faria isso. Mas além dessa sensação de ser vítima indefesa, pesou-me a irreversibilidade da ofensa profunda. Aconteceu. O jeito era se conformar com aquilo. Mas como? Como tolerar que se fizesse um vegano ingerir pedaços de cadáver? Minha boca virou sepulcro pra jogarem restos mortais dentro? Será que não deveria ter havido mais atenção da parte das cozinheiras?

Ser-me-ia melhor ter ficado sozinho até conseguir driblar as emoções mais negativas do momento, mas não – onívoros, geralmente bem-intencionados, faziam questão de dizer algo. Eu precisava de algum vegetariano amigo naquela hora. Mas não apareceu nenhuma visita vegetariana nesse dia pra entender meus sentimentos. E outra nutricionista (que veio me colocar numa bomba para nutrição parenteral) fez questão de proferir palavras preconceituosas, como: “Que absurdo acontecer uma coisa dessas (eu ser vegano) tendo nutricionista na família!” E insistiu nas mesmas frases-prontas que qualquer um diz, que precisava de proteína da carne, etc. até que eu comecei a argumentar de acordo com o que aprendi na SVB com textos do Dr Eric Slywitch, e ela desistiu. E, é claro, fiz questão de questionar a formação acadêmica dessa “nutricionista” discriminadora. O clínico, de bom coração e com toda gentileza, todavia ignorantemente, mandou que eu me acalmasse porque ele não iria receitar que eu comesse carne. Isso é coisa pra se dizer a um vegetariano? Claro que não iria receitar, eu já lhes havia dito que sou completamente vegetariano!

Senti-me em dívida para com o universo. Mesmo sem ser culpa minha, e mesmo sem ter sido uma ingestão proposital, estive envolvido em um desrespeito à vida, e aos mortos (pois não quero que alguém coma meus restos mortais, assim como não quero que despedacem o cadáver de animal algum). Identifiquei-me com Lady Macbeth e sua mancha indelével, com um cancro assíduo na consciência e a sensação de ter sangue nas mãos. Escovei os dentes várias vezes, mas aquele gosto cadavérico não saía. Lembrei-me de alguns versos de meu poeta favorito, Augusto dos Anjos: “Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!”. Nem todo dinheiro do mundo seria capaz de desfazer o trauma eterno. De que adiantaria uma “indenização”? Se a honra da pessoa conforme ela própria define e entende é violada, não há antídoto. Não há paliativo suficientemente forte, pelo menos não imediatamente.

E o fato ocorrido me perseguia, assombrava-me, como um pesadelo diurno. Parei num nervo – um nervo! O símbolo perfeito da sensibilidade, da dor, presente nos animais que respeito, e em mim mesmo! Eu tenho consideração profunda para com toda vida que tenha nervos, e evito causar-lh
es dor, sofrimento e morte. Mas eu toquei um nervo com os dentes! Olhei para a parede, onde, brincando, uns colegas deixaram o desenho de uma vaca pra mim. Foi só um motivo pra eu ter mil recaídas no choro compulsivo. Meus ideais de Direitos Animais por água abaixo, ou pior: por goela abaixo! O que fiz pra merecer tamanho descaso? Uma vez que me identifiquei com o veganismo, destruir meu veganismo é destruir minha personalidade, que, há tempos, o inclui. Que destruição dos valores morais de uma pessoa! Desacato! Se a pecuária (sistema escravista antiético e monopolista) não entra na minha cabeça, não devia ter entrado em minha boca! Essa tortura psicológica jamais será esquecida.

Pensava também em todo meu esforço pelo vegetarianismo. O tempo sofrido até eu conseguir abandonar sorvete, chocolate, etc. – tudo em vão, pois havia comido uma vaca sem querer! E não podia vomitá-la! Quantas pizzas rejeitadas, quantas vezes testemunhei de minha decisão pela alimentação vegana, quantas pessoas eu trouxe pro vegetarianismo, porém, em troca de simples desculpas, ingeri tecido muscular bovino de olhos vendados! Chorava e me machucava mais quando pensava em minha luta pela paz vegetariana, tanto comigo mesmo quanto em sociedade. Meu coração doía, mas não era cardiopatia (mesmo porque nunca vi vegetariano com problema no coração), era aquela tristeza profunda, que faz a gente rejeitar até o sangue que nos corre pelas veias, a vida perde o sabor. Pra mim a vida passou a ter sabor e odor de carniça!

Eu já nem sentia mais as lágrimas. Meus olhos inchavam e se avermelhavam. Foi uma mudança súbita daquele estado constantemente sorridente para uma depressão após agressão moral. Como eu ia andar de cabeça erguida depois daquele lastimável acontecimento? Como ia encarar as pessoas que eu trouxe para o vegetarianismo, e os outros diante de quem nunca tive vergonha de reafirmar meus princípios? Mas o pior era a sensação de estar com o corpo sujo, que me fez perder toda auto-estima. Não estava nem aí pra cicatriz enorme que eu ia ter na barriga, nem pra quão feio de magreza eu estava; o que me fez rejeitar meu próprio corpo foi um pedaço de defunto bovino dentro de meu estômago! E ele embrulhava, e quase voltou (eu torcendo pra que voltasse, já que eu não podia forçar o vômito), mas tive que digerir aquilo. Que digestão sofrida! Havia pensado que melhor não ter intestinos que tê-los para consumir frutos da pecuária; mas, após recuperarem-nos cirurgicamente, deram-me os frutos da morte, de um crime de assassinato, a coisa mais repugnante e imoral desse mundo: um pedaço de cadáver no prato!

A pior lembrança do hospital e do mês de internação foi essa, detalhadamente descrita acima. Eu havia suportado bem três cirurgias intestinais, mais de uma semana em jejum, ficar preso ao leito dias vários, e muitas outras coisas. Mas aquela ofensa moral não suportei, cortou-me o coração. Deixo-lhes o presente texto como um protesto, e para servir de exemplo ou, no mínimo, advertência. Afinal, é coisa séria – uma questão de Direitos Humanos. Pois, se nós vivemos num mundo onde uma vaca não tem o direito à vida, ao menos temos o direito de não participar de sua morte. Aliás, depois disso tudo me pergunto: temos esse direito? Ou melhor: esse direito é respeitado? Até que ponto temos liberdade de consciência e boa-fé?

Silas Cordeiro Pascoal <cordeiropascoal@yahoo.com.br>

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